domingo, 2 de agosto de 2020

um sonho lindo

ri, filho
não escondas a alegria
sente o mundo
na palma da tua mão.

arregaça os dentes
num sorriso maior
que a vontade de viver
dos valorosos.

sábado, 11 de abril de 2020

apanhámos o mesmo autocarro, no meio de lisboa. eu, cansadíssima, servi-me do teu ombro para suportar a cabeça e as dores que ainda trago. fechei os olhos e descansei, o teu braço aconchegava-me, eu sorria no sono, e tu sabias.

domingo, 16 de fevereiro de 2020

querida Teresa,
nunca mais nos veremos. o meu corpo ainda está parado em santa apolónia, a olhar para dentro desses olhos castanhos transparentes.
diz-me como é que eu fujo desta sensação de impotência e de luto, que me esmaga a cada minuto que me lembro que te tive à minha frente, viva e inteira, comigo e com os meus pensamentos.
tu és o fim dos meus sonhos.
Teresa, como eu te queria ter abraçado. não te soube entregar palavras mais doces.
deixei-te ir.
oh, mudámos tanto e a vida não pára para contemplar as mudanças.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

querida,
deixo estes dedos pesarem com a saudade. eras tão bonita, tão especial.
"gosto muito, mas gosto ainda mais de ti"
manuscrito, sentido por alguém como eu, que olhou para dentro de outro, não basta vermos o rosto, temos de explorar o resto.
mas nós ficámos por saber uma da outra e eu cheguei a casa a chorar por nunca te ter realmente conhecido e ter-te querido desde os teus olhos negros.
ainda hoje sorrio ao ouvir a música que dançavas há 30 anos, cheia de ritmo como tu, como os teus passos certos.
hoje não te dou nome, receio perder a tua face em três sílabas comuns a tantas mulheres.
sinto a tua falta.

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

um sonho lindo

gerei vida
gerei vida
gerei vida

nasceste no dia em que eu nasci
dia solarengo
aceno ao corpo que passa
prostrado
adeus, há vida


sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O Torga é que sabe

Diário I

#4

continuo à procura do livro que prometi dar-te. ele desapareceu, nem os alfarrabistas o encontram, e eu quero mesmo dar-to porque tu estás naquelas páginas.

tenho feito um esforço para não me apegar tanto, porque não quero ficar com medo. mas insisto em oferecer-te aquelas palavras.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

pavimento

chão em cacos afiados a rasgar a pele,
onde encontramos o abraço sentido,
apertando sempre mais na ânsia de doer
cada vez menos.

prefiro o teu reflexo embaçado,
na superfície brilhante que pisas
e nunca limpas. mas também
nunca voltas.








quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Sabes C.,
ontem falei com ela. foi um dia tão bonito, tão idílico, que eu quase desejei que ela tivesse lá estado. estavas tu, é verdade.
Ela diz-me que nem queria acreditar quando soube da novidade, e a minha tentação é responder que nem eu acredito ainda. foi um sonho, trago imagens fixas nas pálpebras, tenho breves momentos de cinema em mim, a contar-me como foi que as horas passaram.

Tu tens um bocado de mim preso em ti. E estavas lá.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

às vezes eu falo baixinho contigo
na escuridão
depois de falar com Deus.

será que estes sussurros poisam em ti
de noite  de madrugada
estás acordada?

domingo, 23 de setembro de 2018

#3, rascunho

fala tu.
eu esgoto com alguma rapidez as palavras, e de qualquer das maneiras nem sempre me entendes.
quando não me compreendes, é como se rasgasses parte das linhas que eu cosi com o teu nome, cá dentro, tão fundo, tão longe do toque. 
por isso, fala tu. diz o que quiseres, interpreta como quiseres, sê o que quiseres. deixa o meu bordado intacto.




sábado, 25 de agosto de 2018

#2, rascunho

gostava tanto de ti.
enquanto te espero olho para as fotografias que tirámos, leio as mensagens que trocámos, e dói-me a carne sobressaltada pela memória de querer-te tanto.
insulto aquilo/aquele que me guia por te colocar ao meu lado, sabendo que és traiçoeira, conhecedora de mil palavras distintas, todas elas usadas para me dizer gosto de ti.
e eu gostava tanto de ti.



quarta-feira, 8 de agosto de 2018

há umas noites...

o vazio não me deixava esquecer
que algures, num tempo não muito certo,
havia qualquer coisa, digna de um adjectivo bonito,
nas palavras. e na voz. e no embalo.


eu tenho que te agradecer pela interrupção do nada
não seria o embalo, um abalo? não seria a tua voz, um alerta? não seria aqui a paragem, o final de todos os adjectivos mais ou menos bonitos, mais ou menos tristes.


quando não falo, estou a evitar o confronto comigo
e inevitavelmente tropeço na normalidade das pessoas à minha volta.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Rascunho


Nunca me esqueci do dia em que ela me disse que tinha sonhado comigo em cima de um palco, um mar de pessoas a ouvir-me cantar.
Durante muito tempo, sonhei acordada com essa visão, espantada com o que ela vira quando fechara os olhos. Nunca pisaria um palco, muito menos para que se ouvisse a minha voz, por vontade do meu peito, tambor fraco e cobarde.
Anos mais tarde, em cima do palco a cantar, perguntei-me se nessa névoa ela teria visto a emoção de receber aplausos, de olhar para rostos nunca vistos mas que contorcem a face como nós, são pequenas pessoas na escuridão a ouvir-me. A mim!
Ela já me tinha visto. Ela sabia do meu futuro.
Ontem, ela sonhou que o meu ventre carregava o futuro mais bonito que existe.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

2015

não demos por isso. já lá vão 3 anos. a única coisa que te posso dar é um lamento e os ombros encolhidos. não quiseste acreditar quando te disse que não valia nada. não valia a pena. quiseste insistir no erro, chapinhar no lamaçal dos meus erros.
desculpa e, olha, é assim mesmo. para a próxima ouve-me. eu conheço bem os cantos à casa.

terça-feira, 17 de julho de 2018

isto não é um raciocínio poético

o que é que eu faço acordada às 2 da manhã
com a angústia a percorrer o corpo
desde a clavícula até aos meus seios

o que é que eu faço com este aperto,
como é que eu posso adormecer nestes dias
onde é que eu vou buscar um nadinha de paz

vejo fotografias dos últimos 3 anos
e desejo que esse pedaço de vida não tenha existido
eu não consigo apagar o mal que ficou
eu não me perdoo por me ter consumido tanto
eu não quero viver mais um passado
eu tive a calma e a felicidade à minha frente e não me apercebi, só muito tarde me apercebi.

Georgy Gurianov (Russian, 1961–2013)
The Dive, 1995

sexta-feira, 13 de julho de 2018

"tudo o que ella dizia"

querida,
nem sabes, não imaginas, estás longe de entender a onda que criaste nestas águas paradas, cheias de espuma suja dos dias passados.
pergunto-me muitas vezes se os outros se lembram de mim, o que é que guardam? qual é a imagem que ficou do tempo que passámos juntos?
sacrificava parte de mim para te conhecer. sacrificava parte de mim para me consolares outra vez.

Almada Negreiros, Piquenique

sábado, 9 de junho de 2018

no comboio para a Covilhã é preciso esforçar os olhos para ver a paisagem lá fora, ao invés do nosso reflexo, e contudo desvia-se sempre o olhar para o nosso rosto. já nos perguntámos tudo, sobre os caminhos que temos escolhido, e nada nos surge senão uma cara cansada, a denunciar as noites mal dormidas.

sábado, 2 de junho de 2018

da necessidade de resguardo

"Quando desejamos moldar as coisas conforme a imaginação, vamos sempre de encontro a um muro e ficamos desiludidos, não com o outro, mas com as exigências que lhe fazemos. Isto é parvoíce e francamente muito antidemocrático, mas humano." Etty Hillesum

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Deo gratias

preciso expurgar os teus olhos
fixados no meu peito
queimar incensos,
deixar que qualquer anjo
siga o rasto desse fumo e,
ajoelhado  arrebatado
humildemente entregue as orações,
que os perfumes revelaram num fio acinzentado.