segunda-feira, 29 de maio de 2017

ausente

aceitaria que fosses pó no meu olho
a fazer-me lacrimejar
o espinho cravado no dedo
que não consigo retirar
a areia demasiado quente
que os pés ousam pisar
e incomodasses por existires.



segunda-feira, 22 de maio de 2017

quarta-feira, 17 de maio de 2017

say, say, say

retiraste a peça central que me equilibrava. caí. deixei cair primeiro os braços que resistiam ao peso dos ombros encolhidos, de cada lágrima grossa que rompia o ar a alta velocidade e aterrava no chão onde o meu corpo foi parar.
caí no tapete cinzento felpudo do quarto temporário, desarrumado como o meu coração quando me falas.
fiquei de pernas cruzadas a sentir-me tola, criança que brinca numa roda mas perde o jogo e irrompe em soluços insuportáveis, histéricos, como se a própria vida dependesse daquele instante e saísse lesada pela perda.
talvez a criança tenha razão e talvez eu não tenha ainda esquecido que te perdi, tantas e tantas vezes, e lamentar espraiada no chão seja a minha histeria adulta.
olhei-me ao espelho e vi-te serena. vi a maquilhagem escorrer, descer pelos meus dedos, fugir da água. baptized in all my tears, já dizia o Michael Jackson. foi essa a igreja que me aceitou, a das lágrimas e da saudade e eu sou muito devota.
parte de mim crê em ti. nem imaginas o lugar imenso que te reservei em mim e eu não sei explicar porquê. perder-te é ter de me afogar no poço e ressuscitar sarada.

sábado, 6 de maio de 2017

T.

espero que ele te tenha deixado. espero que ele te tenha deixado viver a tua vida, que sejas feliz, que os desabafos sobre a vida que ele não te deixava viver tenham cessado. eu não sabia o que te dizer, e tu precisavas de alguém, mas não de mim T. não de mim.
tu sabias que era chantagem e eu só repetia tens de o deixar, tens de procurar ajuda, tens de fazer a tua vida. eu não sabia que a violência existia ao meu redor, estava longe, do outro lado do ecrã. eu não te vi chorar nem implorar pelo final do tormento... eu não sabia o que fazer. desculpa T. porque agora eu tentaria mais. agora sei mais. só não sei de ti.
eu espero que tenhas conseguido quebrar as correntes da manipulação dele, do seu jogo de palavras perverso... na minha memória és sempre a mulher forte que passa batom vermelho ao final do dia, vaidosa e confiante, a heroína que ensina, quem me deu as palavras para escrever isto. serás sempre a mulher frágil que se apoiou numa desconhecida para enfrentar a realidade. serás sempre a que sobrevive a este mundo cruel.
T., onde quer que o caminho te tenha levado, és sempre forte, grande, corajosa. eu guardo-te aqui. com saudade.