ela tinha razão. ela tinha sempre razão, esse hábito irritante de já ter passado tanta vez pela vida e saber exactamente o que dizer. eu observava-a cá de cima, enquanto percorria o corredor. absorta. ela olhava para um ecrã e eu repetia o milésimo pai nosso dessa tarde, procurando freneticamente qualquer coisa que me acalmasse. via-a pela primeira vez depois de tantos segredos.
ela avisou-me e eu nunca quis enfrentar a realidade.
não me sinto melhor.
ficar a dormir para esquecer a vida e a náusea não traz felicidade.
passaram apenas 5 dias, no melhor dos casos tenho ainda mais 10 dias disto. depois logo se vê.
"Aucun poème ne sera si grand, si noble, si véritablement digne du nom de poème, que celui qui aura été uniquement écrit pour le plaisir d’écrire un poème." Charles Baudelaire |||| "Há muitas marés que esperava por ti..." Romeu Correia
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
15 dias
hoje sentei-me em frente a uma senhora que vinha a chorar no metro. um nó na garganta, uma vontade súbita de a abraçar, de chorar com ela, de dizer que vai tudo ficar bem, quando nem sei se eu ficarei bem.
o chapéu de chuva fez-me dois arranhões na mão direita e eu contemplei-os desde a manhã. parecem guelras. será coincidência? é o meu corpo a pedir para respirar depois destas noites de choro?
não me doeram e só me apercebi que os tinha quando vislumbrei duas marcas vermelhas até então desconhecidas.
hoje falei dos meus arranhões e doeu bastante. reparei que passo metade do tempo a sorrir, mesmo quando estou a relatar episódios tristes. não chorei mas a minha voz tremeu e se o meu número não tivesse sido chamado 5 minutos depois de lá chegar, provavelmente tinha fugido. da verdade. é o que eu faço.
mais 15 dias. mais duas semanas de confronto comigo.
o chapéu de chuva fez-me dois arranhões na mão direita e eu contemplei-os desde a manhã. parecem guelras. será coincidência? é o meu corpo a pedir para respirar depois destas noites de choro?
não me doeram e só me apercebi que os tinha quando vislumbrei duas marcas vermelhas até então desconhecidas.
hoje falei dos meus arranhões e doeu bastante. reparei que passo metade do tempo a sorrir, mesmo quando estou a relatar episódios tristes. não chorei mas a minha voz tremeu e se o meu número não tivesse sido chamado 5 minutos depois de lá chegar, provavelmente tinha fugido. da verdade. é o que eu faço.
mais 15 dias. mais duas semanas de confronto comigo.
FBAUL, 2017
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
poema à cabeceira
comecei assim,
a escrever sobre as nossas noites
sobre dois corpos apaixonados
numa idade em que nos diziam
que não sabíamos o que isso era.
saberiam eles?
saberiam sussurrar à noite
enquanto todos dormem
tudo em ti é tão bonito...?
saberiam gemer e tremer
deixar o corpo à solta
enrolar as pernas e os braços
as línguas e os dedos
ansiar pelo final
implorar pelo final...?
mal sabiam eles que o teu corpo não se esgota
que as tuas mãos abarcam os meus seios
enquanto a tua boca brinca
com as palavras, junto à minha orelha
ninguém sabia que os teus ombros
foram feitos à medida das minhas costas
e quando me abraças, os teus dedos
exploram o terreno fértil
que um dia dará fruto.
a escrever sobre as nossas noites
sobre dois corpos apaixonados
numa idade em que nos diziam
que não sabíamos o que isso era.
saberiam eles?
saberiam sussurrar à noite
enquanto todos dormem
tudo em ti é tão bonito...?
saberiam gemer e tremer
deixar o corpo à solta
enrolar as pernas e os braços
as línguas e os dedos
ansiar pelo final
implorar pelo final...?
mal sabiam eles que o teu corpo não se esgota
que as tuas mãos abarcam os meus seios
enquanto a tua boca brinca
com as palavras, junto à minha orelha
ninguém sabia que os teus ombros
foram feitos à medida das minhas costas
e quando me abraças, os teus dedos
exploram o terreno fértil
que um dia dará fruto.
sábado, 21 de janeiro de 2017
1a carta de janeiro
Querida C.,
estou bem. estou feliz.
tenho pensado no que era a nossa amizade.
nunca me deste os parabéns. eu, embora triste por isso, nunca quis saber. nem toda a gente tem a sorte de ter uma boa memória. o meu melhor amigo não consegue decorar datas.
quando quiseste que eu me afastasse - com toda a razão e obrigada - começaste a falar de outras amizades. quando me reaproximei ofereceste-me palavras duras e, meses depois, um "gosto muito de ti" que junto com "és especial" se tornaram nas palavras menos desejadas.
mas ficou tudo bem, e falamos como se nada tivesse acontecido nestes anos. está tudo bem.
tudo isto para mim é uma facada no coração. sinto que quando choro estou a desfazer-me por dentro. sei que me convenço de coisas, sei que te imprimo noutra pessoa, sei que não teres querido saber de mim não é igual a outros não terem interesse. e sei que as nossas vidas são uma correria.
C., agora tenho a minha casa. cresci muito, passaram 10 anos. agora cozinho e lavo a roupa, aspiro, às vezes lavo a louça, fico mais cansada do que dantes. mas tenho o amor da minha vida ao meu lado. há uns anos perguntaste, com ar de desprezo, se eu ainda estava com ele. diz-me C., como é que eu podia ficar sem a pessoa que me equilibra? que traz estabilidade à minha cabeça, ao meu coração, à minha vida?
disseste-me também que eu seria uma grande mulher. 10 anos depois, o que é que vês C.? não sou a grande mulher que previas, sou isto. e tenho pena de ser só isto. (mas, vês?, sei citar ruy belo)
falta-me muito C., para ser uma grande mulher. e, não sei, mas acho que a depressão me vai apanhando e minando o que resta. e tu não estás aqui.
um dia não existirei, C.
li o diário da florbela espanca e é espantosa a escrita de alguém que se vai suicidar.
desculpa C., já aqui estivemos e não soubeste o que dizer. às vezes penso nisso. às vezes penso como. lembro-me daqueles que sei que me querem. às vezes parece-me que não há ninguém. como tu, afastam-se. e eu não consigo confiar em quem não quer saber de mim. magoa-me tanto.
achas que isto é uma grande mulher? passar os dias a chorar porque sinto que ninguém gosta disto (e não vejo razão para gostarem)?
desculpa C., já aqui estivemos.
um dia não existirei, C.
estou bem. estou feliz.
tenho pensado no que era a nossa amizade.
nunca me deste os parabéns. eu, embora triste por isso, nunca quis saber. nem toda a gente tem a sorte de ter uma boa memória. o meu melhor amigo não consegue decorar datas.
quando quiseste que eu me afastasse - com toda a razão e obrigada - começaste a falar de outras amizades. quando me reaproximei ofereceste-me palavras duras e, meses depois, um "gosto muito de ti" que junto com "és especial" se tornaram nas palavras menos desejadas.
mas ficou tudo bem, e falamos como se nada tivesse acontecido nestes anos. está tudo bem.
tudo isto para mim é uma facada no coração. sinto que quando choro estou a desfazer-me por dentro. sei que me convenço de coisas, sei que te imprimo noutra pessoa, sei que não teres querido saber de mim não é igual a outros não terem interesse. e sei que as nossas vidas são uma correria.
C., agora tenho a minha casa. cresci muito, passaram 10 anos. agora cozinho e lavo a roupa, aspiro, às vezes lavo a louça, fico mais cansada do que dantes. mas tenho o amor da minha vida ao meu lado. há uns anos perguntaste, com ar de desprezo, se eu ainda estava com ele. diz-me C., como é que eu podia ficar sem a pessoa que me equilibra? que traz estabilidade à minha cabeça, ao meu coração, à minha vida?
disseste-me também que eu seria uma grande mulher. 10 anos depois, o que é que vês C.? não sou a grande mulher que previas, sou isto. e tenho pena de ser só isto. (mas, vês?, sei citar ruy belo)
falta-me muito C., para ser uma grande mulher. e, não sei, mas acho que a depressão me vai apanhando e minando o que resta. e tu não estás aqui.
um dia não existirei, C.
li o diário da florbela espanca e é espantosa a escrita de alguém que se vai suicidar.
desculpa C., já aqui estivemos e não soubeste o que dizer. às vezes penso nisso. às vezes penso como. lembro-me daqueles que sei que me querem. às vezes parece-me que não há ninguém. como tu, afastam-se. e eu não consigo confiar em quem não quer saber de mim. magoa-me tanto.
achas que isto é uma grande mulher? passar os dias a chorar porque sinto que ninguém gosta disto (e não vejo razão para gostarem)?
desculpa C., já aqui estivemos.
um dia não existirei, C.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
coração fraco
ler para não chorar
ou talvez deixar cair
as lágrimas. decoram as páginas
do Dostoiévski acabado de comprar
a cheirar a livro novo
maleável
como a amizade que se molda
aos novos costumes
que resiste às prioridades redefinidas
que não lamenta a touca que não nos toca.
ou talvez deixar cair
as lágrimas. decoram as páginas
do Dostoiévski acabado de comprar
a cheirar a livro novo
maleável
como a amizade que se molda
aos novos costumes
que resiste às prioridades redefinidas
que não lamenta a touca que não nos toca.
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
quebrar
hoje sonhei que mudavas de foto de perfil no Facebook. estavas radiante e não há nada que me deixe mais feliz que ver-te assim.
não mintas. é para quebrar, eventualmente. vi uma criança puxar o galho de uma árvore, que corajosamente resistiu à força daqueles braços fracos mas entusiasmados. eu sou assim, fraca mas entusiasmada. ao contrário da criança eu vou partir o que sobrou. quando me chamarem à atenção e me quiserem puxar pela mão, salvar-me da miséria em que me afundei, já terei terminado a minha tarefa, olhos cegos com o peso das lágrimas e da inveja.
não mintas. é para quebrar, eventualmente. vi uma criança puxar o galho de uma árvore, que corajosamente resistiu à força daqueles braços fracos mas entusiasmados. eu sou assim, fraca mas entusiasmada. ao contrário da criança eu vou partir o que sobrou. quando me chamarem à atenção e me quiserem puxar pela mão, salvar-me da miséria em que me afundei, já terei terminado a minha tarefa, olhos cegos com o peso das lágrimas e da inveja.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
estômago
tu reciclas as palavras.
no fundo é o que todos fazemos, apanhamos expressões, citações e embrulhamos de novo para dar a outra pessoa.
não te posso dar nada do que pedes e quando tento escrever sai sempre mais feio do que gostaria. não há poesia a correr nas veias. portanto, não há nada aqui que te possa prender.
nem sabes como eu queria escrever de uma forma bonita, ter (ou ser) poesia, embelezar o que me dizes e o que já me disseram... em vez disso estou sentada a ver o fumo tomar forma, incapaz de escrever uma linha que seja sobre o inverno perfeito que me rodeou.
hoje li muitas cartas. será que também ficas a ver o fumo subir e rodopiar...? a amizade para ti é isto e para mim é um murro no estômago. senti que me roubaram, que me reciclaram perdão, e que aquelas cartas eram iguais às que te escrevia. tudo imaginado, tudo fora da realidade. nunca as leste, nunca nos cruzámos, nunca te chamei queridaC. um dia disseste-me que eu tinha jeito para isto, acreditaste na "poesia" porque nada era reutilizado. aquelas palavras eram originais, ditas pela primeira vez, sentidas genuinamente, e olha, eu não as posso dizer a mais ninguém. gastei-as contigo e ficou este abismo.
hoje sobrevivemos virtualmente. somos figuras virtuais que se escondem atrás de uma identidade que, possivelmente, não é a nossa. não é a minha. não há pedaço do meu eu virtual que não te olhe nos olhos quando falas. não escrevemos mais que aquilo que não dizemos.
não quero uma cópia tua. não quero as palavras que já disse, ouvi e li. quero o original, quero voltar atrás, rasgar as cartas e escrever tudo de novo. escrever-te sem teres existido, querida C., mesmo que no fundo apenas estejas aqui.
no fundo é o que todos fazemos, apanhamos expressões, citações e embrulhamos de novo para dar a outra pessoa.
não te posso dar nada do que pedes e quando tento escrever sai sempre mais feio do que gostaria. não há poesia a correr nas veias. portanto, não há nada aqui que te possa prender.
nem sabes como eu queria escrever de uma forma bonita, ter (ou ser) poesia, embelezar o que me dizes e o que já me disseram... em vez disso estou sentada a ver o fumo tomar forma, incapaz de escrever uma linha que seja sobre o inverno perfeito que me rodeou.
hoje li muitas cartas. será que também ficas a ver o fumo subir e rodopiar...? a amizade para ti é isto e para mim é um murro no estômago. senti que me roubaram, que me reciclaram perdão, e que aquelas cartas eram iguais às que te escrevia. tudo imaginado, tudo fora da realidade. nunca as leste, nunca nos cruzámos, nunca te chamei querida
hoje sobrevivemos virtualmente. somos figuras virtuais que se escondem atrás de uma identidade que, possivelmente, não é a nossa. não é a minha. não há pedaço do meu eu virtual que não te olhe nos olhos quando falas. não escrevemos mais que aquilo que não dizemos.
não quero uma cópia tua. não quero as palavras que já disse, ouvi e li. quero o original, quero voltar atrás, rasgar as cartas e escrever tudo de novo. escrever-te sem teres existido, querida C., mesmo que no fundo apenas estejas aqui.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
am i blue
talvez vos tenha amado como amo os dias frios em que me posso esconder, entre camadas de roupa e sono e preguiça. "há dias assim", diz ignorando com quem está a falar. a falta de comida, de sono, de conversa. passar o dia calada, com tanto por fazer e tão pouca vontade, e errar na pessoa em quem confiar.
as saudades são imensas. mas perdemo-nos.
as saudades são imensas. mas perdemo-nos.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
jan 2017
estás fora da minha janela
alguém te viu entre o fumo,
entre as garrafas vazias
e os pacotes que se acumulam
com a comida a apodrecer como
estas mãos que tentam escrever-te.
chamaram-te, abriram-te a porta,
enquanto eu dormia
enquanto sonhava com os teus passos
com a tua atenção.
não estive lá, não estou aqui
continuas no teu caminho,
não sou forte, não sou capaz
de gritar o teu nome.
alguém te viu entre o fumo,
entre as garrafas vazias
e os pacotes que se acumulam
com a comida a apodrecer como
estas mãos que tentam escrever-te.
chamaram-te, abriram-te a porta,
enquanto eu dormia
enquanto sonhava com os teus passos
com a tua atenção.
não estive lá, não estou aqui
continuas no teu caminho,
não sou forte, não sou capaz
de gritar o teu nome.
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