quinta-feira, 30 de junho de 2016

cartas

quando era miúda as minhas cartas começavam sempre com querida C.. deixaste de me ouvir mas o papel tomou o teu lugar e o teu nome. os anos passaram, mas tu não. tu ficaste neste vazio, na esperança de uma nova aproximação, na saudade de estar contigo, de desabafar, de desabar.

Querida C., pela primeira vez não sinto a tua falta.
questiono-me se sou eu que perco o pé, se sou eu que gosto demais, se não aprendi a nadar ao ritmo dessa corrente pisciana.
o que quer que seja estou em paz e todo o meu carinho esfuma-se num tímido desejo que tudo te corra bem.
Querida C., talvez me afogue nas tuas palavras. pode ser até que o meu olhar procure refúgio noutro ponto do mapa quando essas palavras forem demasiado dolorosas para a alma.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

avulso

não tenho inveja
garanto, forçando um sorriso convicto de quem já não tem nada a perder.
não mintas, sempre foste invejosa, sempre quiseste o que os outros têm. não aguentas ver a felicidade dos outros, precisas de aparecer e testar a aparente alegria das pessoas à tua volta.
nego. não apareci para ser inconveniente, não quis perturbar o vosso momento mas entendam aquilo que me está a acontecer. não tenho inveja, mas tenho uma tristeza enorme por não poder passar pelo mesmo que vocês, pelo menos para já.
há duas semanas que sonho com a mesma coisa. o meu corpo não tem ajudado. saberá ele do meu desejo? terei eu, inadvertidamente, provocado em mim os sintomas do sonho por realizar?
por isso se vos vejo assim e choro é apenas por isto, por querer. preciso de espaço para evoluir, para dar continuidade ao meu ser.
*
uma estranha praga assola os meus amigos.
a depressão.
já aguento isto há 18 anos, a conversa é sempre a mesma, já não aguento mais, para mim chega, retorque a jovem, visivelmente transtornada. o pensamento incauto é muito belo. não há nada como estar atenta à poesia que é criada inesperadamente, a cada segundo, pelos outros.
depois podemos continuar o dia a esmagar com as próprias mãos os sonhos, a alegria, a esperança que deveríamos carregar.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

home

tudo o que escrevo é literal
perdi o mistério, o ponto de interrogação que pairava
de cada vez que o teu nome fugia por entre as linhas
tudo tem sentido
quem sou eu para dar às palavras outra vida que não esta,
se na sua mutação perco tanto e deixo escapar o teu nome
tudo passa
e até poderemos escrever um dia sem figuras de estilo
como faço agora na esperança de agarrar o teu nome esquivo
para o devolver à casa.





sexta-feira, 10 de junho de 2016

dos dias

quando não sabia o que fazer com as palavras escrevia cartas
tu nunca as lias, mas era aí que largava o peso que trazia
o papel não nos tenta afastar, acolhe todas as letras apaticamente
e se nem me podia cruzar contigo, como é que haveria de contar-te a história dos dias?

tenho pensado muito na tua expressão decepcionada, porque tenho medo
há quem pareça transportar a tua essência, em quem vejo os teus olhos
carregados de amizade e de carinho e, mais tarde, de tristeza
nos teus dedos um cigarro, que já era apenas cinza, espera o fim

eu nunca percebi os teus olhos e as palavras que escondiam
nunca recebi as cartas que não escrevias.


sexta-feira, 3 de junho de 2016

junho

se me perguntarem o que se passa, eu direi nada
porque é isso que a minha voz me diz
nada, não és nada
e quando se é nada, não se pode querer existir
não se pode querer sentir


quarta-feira, 1 de junho de 2016