a ideia de desistir dá-me náuseas, limpo as lágrimas com as mãos abertas e penso que ainda sou capaz. talvez não. talvez seja tempo de abandonar o barco, assumir que sou fraca, de espírito, de carne. assumir que há tempo para tudo, mas que o tempo de espera é intolerável.
às vezes ainda penso no que quis. às vezes desenho estratégias, penso se alguém dará pela minha falta. talvez não. há tanta coisa a ocupar-nos, há tanto ruído. já não há o sentar debaixo da árvore a contemplar a existência, a pensar com calma nestas palavras. nestes palavrões.
o vácuo na cabeça a estender-se até aos ouvidos depois do choro. os olhos semicerrados a certificarem-se que tudo está por aqui. até o meu corpo.
"Aucun poème ne sera si grand, si noble, si véritablement digne du nom de poème, que celui qui aura été uniquement écrit pour le plaisir d’écrire un poème." Charles Baudelaire |||| "Há muitas marés que esperava por ti..." Romeu Correia
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
terça-feira, 25 de outubro de 2016
dor de cabeça à uma e meia
finalmente aparecem palavras e parágrafos e...
novas frases enchendo as páginas em branco
houve escrita
sinto sempre que sou a culpada
que provoquei isto
que a incerteza do futuro arranjará sempre um problema
deixo-me cair na banheira onde ninguém me ouve chorar
porque houve escrita mas o meu corpo não quis continuar
e sou eu
sou sempre eu o terramoto
eu equivale a destruição
novas frases enchendo as páginas em branco
houve escrita
sinto sempre que sou a culpada
que provoquei isto
que a incerteza do futuro arranjará sempre um problema
deixo-me cair na banheira onde ninguém me ouve chorar
porque houve escrita mas o meu corpo não quis continuar
e sou eu
sou sempre eu o terramoto
eu equivale a destruição
sexta-feira, 21 de outubro de 2016
...
sentada no comboio a falar com uma amiga, confesso-lhe que vou desistir. não faças isso, não agora. doente. nem em sonhos sou capaz de sonhar tanto.
lembra-me outra vez que não sou importante. corta o diálogo comigo porque eu não sou capaz de ficar calada. enumera todas as razões que te vierem à cabeça para me esquecer. se te der jeito pergunta por mim e pelas minhas lágrimas. não sei em que acreditar. se digo o que quero ouvir, quebro e se digo o contrário, não consigo acreditar. é aqui que páro. saí, não quero voltar.
agora vou voltar ao que tem de ser feito.
há dias bons...
lembra-me outra vez que não sou importante. corta o diálogo comigo porque eu não sou capaz de ficar calada. enumera todas as razões que te vierem à cabeça para me esquecer. se te der jeito pergunta por mim e pelas minhas lágrimas. não sei em que acreditar. se digo o que quero ouvir, quebro e se digo o contrário, não consigo acreditar. é aqui que páro. saí, não quero voltar.
agora vou voltar ao que tem de ser feito.
há dias bons...
terça-feira, 18 de outubro de 2016
à tua espera
que o meu corpo permita
é a única prece que repito
os dias passam-se, sempre dolorosos
sempre demorados
e eu continuo sentada, fechada sobre mim
abraçada ao meu estômago
não estou à tua espera
nem sei o que vi, o que vejo
a casa abandonada
o auscultador a pairar na sala
a vontade de fugir e de ficar
escrevinhar na página em branco
procurar tudo o que não encontrei
mas não estou à tua espera
e nunca estarei
a tua passagem é indolor
e eu inútil
imatura
incapaz.
é a única prece que repito
os dias passam-se, sempre dolorosos
sempre demorados
e eu continuo sentada, fechada sobre mim
abraçada ao meu estômago
não estou à tua espera
nem sei o que vi, o que vejo
a casa abandonada
o auscultador a pairar na sala
a vontade de fugir e de ficar
escrevinhar na página em branco
procurar tudo o que não encontrei
mas não estou à tua espera
e nunca estarei
a tua passagem é indolor
e eu inútil
imatura
incapaz.
terça-feira, 11 de outubro de 2016
tudo (e falta tanto)
os meses fugiram entre o tempo em que te via e o dia de hoje
como se nunca tivesse olhado para o teu rosto
como se nunca tivesse descoberto a cor dos teus olhos
como se a tua expressão de surpresa fosse uma novidade.
eu nunca olhei para ti
relembro as caminhadas, a cabeça baixa
o peso insuportável da timidez
a procura de um ponto de fuga no chão, na parede
entre os meus dedos, na minha roupa.
eu nunca olhei para ti
e a mágoa tratou de curvar ainda mais o meu corpo
soube cerrar os meus punhos
fazer-me tremer como se agitasses o chão à minha volta,
e abrisses fendas onde antes só existiu amor.
só agora te reconheci
e sabes dos golpes que vou sofrendo
e fazes as mesmas perguntas de sempre
e conto-te mais do que devia, porque te reconheço.
desejei muita coisa nestes meses fugitivos
tanta que consinto a traição deste corpo
que me fere, que te olha
que obedece ao que pedi durante as insónias.
como se nunca tivesse olhado para o teu rosto
como se nunca tivesse descoberto a cor dos teus olhos
como se a tua expressão de surpresa fosse uma novidade.
eu nunca olhei para ti
relembro as caminhadas, a cabeça baixa
o peso insuportável da timidez
a procura de um ponto de fuga no chão, na parede
entre os meus dedos, na minha roupa.
eu nunca olhei para ti
e a mágoa tratou de curvar ainda mais o meu corpo
soube cerrar os meus punhos
fazer-me tremer como se agitasses o chão à minha volta,
e abrisses fendas onde antes só existiu amor.
só agora te reconheci
e sabes dos golpes que vou sofrendo
e fazes as mesmas perguntas de sempre
e conto-te mais do que devia, porque te reconheço.
desejei muita coisa nestes meses fugitivos
tanta que consinto a traição deste corpo
que me fere, que te olha
que obedece ao que pedi durante as insónias.
domingo, 9 de outubro de 2016
nojo
não sou normal
no final apenas um enjoo
nojo total
de mim, do meu corpo, do meu reflexo
das feridas que ficaram
dos pedaços de carne arrancados à força.
se passo por mim e sou forçada a olhar
para esta cara desfigurada
não consigo impedir as lágrimas
não consigo deixar de sentir nojo
repulsa
por ser isto.
já nem o meu corpo quer que o habite.
no final apenas um enjoo
nojo total
de mim, do meu corpo, do meu reflexo
das feridas que ficaram
dos pedaços de carne arrancados à força.
se passo por mim e sou forçada a olhar
para esta cara desfigurada
não consigo impedir as lágrimas
não consigo deixar de sentir nojo
repulsa
por ser isto.
já nem o meu corpo quer que o habite.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
esquecimento
perto da biblioteca paraste para perguntar
porque é que não haveria de gostar de ti?
eu encolho os ombros e olho para o chão
à procura de uma resposta que te cale
que te convença que gostar de mim é uma tarefa ingrata.
esqueci, penso eu, mas cada frase dói mais
e eu já não sei como me esconder
por isso resta-me um não gosta de mim
murmurado à porta da nossa casa.
porque é que não haveria de gostar de ti?
eu encolho os ombros e olho para o chão
à procura de uma resposta que te cale
que te convença que gostar de mim é uma tarefa ingrata.
esqueci, penso eu, mas cada frase dói mais
e eu já não sei como me esconder
por isso resta-me um não gosta de mim
murmurado à porta da nossa casa.
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