como um cão a rodar sobre si, a tentar apanhar a cauda.
como alguém que bebeu vodka a mais e quer falar e troca os pés e os olhos no caminho para casa.
como uma cama meio ocupada por um corpo meio ferido, com dores inexplicáveis.
como um beijo, em parte inocente e parte ardente...
vá lá, sai daqui. a minha vida tem mais interesse com vodka e fruta fresca do que com mágoa.
"Aucun poème ne sera si grand, si noble, si véritablement digne du nom de poème, que celui qui aura été uniquement écrit pour le plaisir d’écrire un poème." Charles Baudelaire |||| "Há muitas marés que esperava por ti..." Romeu Correia
sábado, 24 de junho de 2017
quinta-feira, 22 de junho de 2017
carta aberta à desilusão
tive aulas numa sala com uma janela muito grande. ocupava toda a parede. passava as aulas de história a olhar para fora, a observar as pessoas e os carros e a inventar estórias. anos depois, nessa mesma sala, eu sentava-me em cima da mesa à frente do vidro e não falava. ficava a escutá-la e isso bastava. às vezes nenhuma de nós falava. ela dava-me tempo para o meu relógio parar.
ainda existem vozes assim, dessas que colocam um travão à velocidade a que vivemos. mas não basta.
eu dizia-lhe que nem tudo é maravilhoso, lamentava os enjoos e as tonturas, o sono e apatia (que, em boa verdade, deu um jeito dos diabos) e tudo o que ela sabia responder era que nunca se tinha sentido melhor, que sugeria a toda a gente (como se toda a gente seguisse um padrão).
a parte boa é que contornei a exaustão. sou capaz de pensar claramente. sou capaz de ler. sou capaz de falar e rir. sou capaz de limpar a casa, cozinhar, até já tenho umas plantaçõezinhas.
não o alcancei a passear (acredita, eu até tentei), nem a dar abracinhos e beijinhos a meio mundo (e não me falta quem os dê).
não há padrão, e quem nos quer enfiar padrões pela goela abaixo não merece a nossa atenção.
qualquer via é válida, não há menos dignidade em assumir fraquezas que têm de ser controladas.
quando eu não queria assumir as minhas fraquezas, ela dizia que há muito que acreditava que eu tinha preconceito. é verdade, o meu preconceito era acreditar que tudo ficaria melhor se passeasse, comesse muito sushi e namorasse muito. tem piada, não tem? crer que uma doença passa por nos distrairmos da vida. mas e quando te deitas? e quando ficas acocorada a chorar num canto? e quando choras esta vida e a outra no banho porque tudo te parece perdido?
eu aprendi muito nos últimos meses. obrigada.
ainda existem vozes assim, dessas que colocam um travão à velocidade a que vivemos. mas não basta.
eu dizia-lhe que nem tudo é maravilhoso, lamentava os enjoos e as tonturas, o sono e apatia (que, em boa verdade, deu um jeito dos diabos) e tudo o que ela sabia responder era que nunca se tinha sentido melhor, que sugeria a toda a gente (como se toda a gente seguisse um padrão).
a parte boa é que contornei a exaustão. sou capaz de pensar claramente. sou capaz de ler. sou capaz de falar e rir. sou capaz de limpar a casa, cozinhar, até já tenho umas plantaçõezinhas.
não o alcancei a passear (acredita, eu até tentei), nem a dar abracinhos e beijinhos a meio mundo (e não me falta quem os dê).
não há padrão, e quem nos quer enfiar padrões pela goela abaixo não merece a nossa atenção.
qualquer via é válida, não há menos dignidade em assumir fraquezas que têm de ser controladas.
quando eu não queria assumir as minhas fraquezas, ela dizia que há muito que acreditava que eu tinha preconceito. é verdade, o meu preconceito era acreditar que tudo ficaria melhor se passeasse, comesse muito sushi e namorasse muito. tem piada, não tem? crer que uma doença passa por nos distrairmos da vida. mas e quando te deitas? e quando ficas acocorada a chorar num canto? e quando choras esta vida e a outra no banho porque tudo te parece perdido?
eu aprendi muito nos últimos meses. obrigada.
segunda-feira, 19 de junho de 2017
C. B.
as tuas mãos picam o pano
cuidadosamente esticado sobre a mesa
segues serena mesmo que a agulha
perfure a pele
sabes que crias e destróis com um toque
e os teus dedos criam ouro
dizes assim são as flores da minha aldeia
e eu imagino campos reluzentes
rodopiam o verde e o dourado, entrelaçados
como os fios com que dás à luz
as flores da tua aldeia
eu já vi girassóis
não menina, estas não precisam de sol
precisam dos teus dedos
giram ao ritmo da tua criação
cuidadosamente esticado sobre a mesa
segues serena mesmo que a agulha
perfure a pele
sabes que crias e destróis com um toque
e os teus dedos criam ouro
dizes assim são as flores da minha aldeia
e eu imagino campos reluzentes
rodopiam o verde e o dourado, entrelaçados
como os fios com que dás à luz
as flores da tua aldeia
eu já vi girassóis
não menina, estas não precisam de sol
precisam dos teus dedos
giram ao ritmo da tua criação
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| Retirado do Youtube |
terça-feira, 13 de junho de 2017
até agora ela era a melhor do mundo
mãe dixit.
mãe ampara quando ficamos tontas por não conseguir respirar. mãe diz que vai ficar tudo bem porque somos boas e temos boas intenções. mãe abraça e pede para pararmos de chorar, que ainda por cima há gente a passar na rua.
mãe diz que a estou a assustar, mãe fica preocupada. mãe pede para parar de chorar.
mãe vem beijar à cama e verificar se ainda estamos a chorar.
mãe, desculpa.
mãe ampara quando ficamos tontas por não conseguir respirar. mãe diz que vai ficar tudo bem porque somos boas e temos boas intenções. mãe abraça e pede para pararmos de chorar, que ainda por cima há gente a passar na rua.
mãe diz que a estou a assustar, mãe fica preocupada. mãe pede para parar de chorar.
mãe vem beijar à cama e verificar se ainda estamos a chorar.
mãe, desculpa.
segunda-feira, 12 de junho de 2017
...
quando eu digo que te esqueci, espero não estar a mentir. encontro forças nas coisas mais estranhas. se calhar tu sabias isso. lembras-te que contrariar-me era a solução?
quando eu era bebé o meu pai dizia-me para não subir a um cubo de brincar e assim que eu o ouvia rodar a chave de casa colocava os meus pequenos pés nesse brinquedo. dizer-me para não fazer, não ser, não querer, não esperar, tem o efeito contrário.
o irónico é que depois de tantos anos a desejar estar em paz, não te esperar mais, não querer mais a tua presença, fica um vazio estranho, incómodo... será esta a calma que eu ansiava?
quando eu era bebé o meu pai dizia-me para não subir a um cubo de brincar e assim que eu o ouvia rodar a chave de casa colocava os meus pequenos pés nesse brinquedo. dizer-me para não fazer, não ser, não querer, não esperar, tem o efeito contrário.
o irónico é que depois de tantos anos a desejar estar em paz, não te esperar mais, não querer mais a tua presença, fica um vazio estranho, incómodo... será esta a calma que eu ansiava?
segunda-feira, 5 de junho de 2017
junho
em posição fetal
como se tivesses acabado de nascer
mas tu é que me dás vida
tu é que sopras na minha pele
a formar ondas e remoinhos
onde só existiam falhas humanas
tu é que amparas o corpo
deitado nessa esteira
queimado pelo suor
tu aventuras-te pelas serras
e montes e perdes o fôlego
mas chegas a mim
depois da jornada
como se tivesses acabado de nascer
mas tu é que me dás vida
tu é que sopras na minha pele
a formar ondas e remoinhos
onde só existiam falhas humanas
tu é que amparas o corpo
deitado nessa esteira
queimado pelo suor
tu aventuras-te pelas serras
e montes e perdes o fôlego
mas chegas a mim
depois da jornada
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