quarta-feira, 26 de outubro de 2016

duas

a ideia de desistir dá-me náuseas, limpo as lágrimas com as mãos abertas e penso que ainda sou capaz. talvez não. talvez seja tempo de abandonar o barco, assumir que sou fraca, de espírito, de carne. assumir que há tempo para tudo, mas que o tempo de espera é intolerável.
às vezes ainda penso no que quis. às vezes desenho estratégias, penso se alguém dará pela minha falta. talvez não. há tanta coisa a ocupar-nos, há tanto ruído. já não há o sentar debaixo da árvore a contemplar a existência, a pensar com calma nestas palavras. nestes palavrões.
o vácuo na cabeça a estender-se até aos ouvidos depois do choro. os olhos semicerrados a certificarem-se que tudo está por aqui. até o meu corpo.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

dor de cabeça à uma e meia

finalmente aparecem palavras e parágrafos e...
novas frases enchendo as páginas em branco
houve escrita
sinto sempre que sou a culpada
que provoquei isto
que a incerteza do futuro arranjará sempre um problema
deixo-me cair na banheira onde ninguém me ouve chorar
porque houve escrita mas o meu corpo não quis continuar
e sou eu
sou sempre eu o terramoto
eu equivale a destruição

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

...

sentada no comboio a falar com uma amiga, confesso-lhe que vou desistir. não faças isso, não agora. doente. nem em sonhos sou capaz de sonhar tanto.

lembra-me outra vez que não sou importante. corta o diálogo comigo porque eu não sou capaz de ficar calada. enumera todas as razões que te vierem à cabeça para me esquecer. se te der jeito pergunta por mim e pelas minhas lágrimas. não sei em que acreditar. se digo o que quero ouvir, quebro e se digo o contrário, não consigo acreditar. é aqui que páro. saí, não quero voltar.

agora vou voltar ao que tem de ser feito.
há dias bons...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

à tua espera

que o meu corpo permita
é a única prece que repito
os dias passam-se, sempre dolorosos
sempre demorados
e eu continuo sentada, fechada sobre mim
abraçada ao meu estômago
não estou à tua espera
nem sei o que vi, o que vejo
a casa abandonada
o auscultador a pairar na sala
a vontade de fugir e de ficar
escrevinhar na página em branco
procurar tudo o que não encontrei
mas não estou à tua espera
e nunca estarei
a tua passagem é indolor
e eu inútil
imatura
incapaz.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

tudo (e falta tanto)

os meses fugiram entre o tempo em que te via e o dia de hoje
como se nunca tivesse olhado para o teu rosto
como se nunca tivesse descoberto a cor dos teus olhos
como se a tua expressão de surpresa fosse uma novidade.
eu nunca olhei para ti
relembro as caminhadas, a cabeça baixa
o peso insuportável da timidez
a procura de um ponto de fuga no chão, na parede
entre os meus dedos, na minha roupa.
eu nunca olhei para ti
e a mágoa tratou de curvar ainda mais o meu corpo
soube cerrar os meus punhos
fazer-me tremer como se agitasses o chão à minha volta,
e abrisses fendas onde antes só existiu amor.
só agora te reconheci
e sabes dos golpes que vou sofrendo
e fazes as mesmas perguntas de sempre
e conto-te mais do que devia, porque te reconheço.
desejei muita coisa nestes meses fugitivos
tanta que consinto a traição deste corpo
que me fere, que te olha
que obedece ao que pedi durante as insónias.