sexta-feira, 21 de outubro de 2016

...

sentada no comboio a falar com uma amiga, confesso-lhe que vou desistir. não faças isso, não agora. doente. nem em sonhos sou capaz de sonhar tanto.

lembra-me outra vez que não sou importante. corta o diálogo comigo porque eu não sou capaz de ficar calada. enumera todas as razões que te vierem à cabeça para me esquecer. se te der jeito pergunta por mim e pelas minhas lágrimas. não sei em que acreditar. se digo o que quero ouvir, quebro e se digo o contrário, não consigo acreditar. é aqui que páro. saí, não quero voltar.

agora vou voltar ao que tem de ser feito.
há dias bons...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

à tua espera

que o meu corpo permita
é a única prece que repito
os dias passam-se, sempre dolorosos
sempre demorados
e eu continuo sentada, fechada sobre mim
abraçada ao meu estômago
não estou à tua espera
nem sei o que vi, o que vejo
a casa abandonada
o auscultador a pairar na sala
a vontade de fugir e de ficar
escrevinhar na página em branco
procurar tudo o que não encontrei
mas não estou à tua espera
e nunca estarei
a tua passagem é indolor
e eu inútil
imatura
incapaz.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

tudo (e falta tanto)

os meses fugiram entre o tempo em que te via e o dia de hoje
como se nunca tivesse olhado para o teu rosto
como se nunca tivesse descoberto a cor dos teus olhos
como se a tua expressão de surpresa fosse uma novidade.
eu nunca olhei para ti
relembro as caminhadas, a cabeça baixa
o peso insuportável da timidez
a procura de um ponto de fuga no chão, na parede
entre os meus dedos, na minha roupa.
eu nunca olhei para ti
e a mágoa tratou de curvar ainda mais o meu corpo
soube cerrar os meus punhos
fazer-me tremer como se agitasses o chão à minha volta,
e abrisses fendas onde antes só existiu amor.
só agora te reconheci
e sabes dos golpes que vou sofrendo
e fazes as mesmas perguntas de sempre
e conto-te mais do que devia, porque te reconheço.
desejei muita coisa nestes meses fugitivos
tanta que consinto a traição deste corpo
que me fere, que te olha
que obedece ao que pedi durante as insónias.

domingo, 9 de outubro de 2016

nojo

não sou normal
no final apenas um enjoo
nojo total
de mim, do meu corpo, do meu reflexo
das feridas que ficaram
dos pedaços de carne arrancados à força.
se passo por mim e sou forçada a olhar
para esta cara desfigurada
não consigo impedir as lágrimas
não consigo deixar de sentir nojo
repulsa
por ser isto.
já nem o meu corpo quer que o habite.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

esquecimento

perto da biblioteca paraste para perguntar
porque é que não haveria de gostar de ti?
eu encolho os ombros e olho para o chão
à procura de uma resposta que te cale
que te convença que gostar de mim é uma tarefa ingrata.
esqueci, penso eu, mas cada frase dói mais
e eu já não sei como me esconder
por isso resta-me um não gosta de mim
murmurado à porta da nossa casa.