no fundo é o que todos fazemos, apanhamos expressões, citações e embrulhamos de novo para dar a outra pessoa.
não te posso dar nada do que pedes e quando tento escrever sai sempre mais feio do que gostaria. não há poesia a correr nas veias. portanto, não há nada aqui que te possa prender.
nem sabes como eu queria escrever de uma forma bonita, ter (ou ser) poesia, embelezar o que me dizes e o que já me disseram... em vez disso estou sentada a ver o fumo tomar forma, incapaz de escrever uma linha que seja sobre o inverno perfeito que me rodeou.
hoje li muitas cartas. será que também ficas a ver o fumo subir e rodopiar...? a amizade para ti é isto e para mim é um murro no estômago. senti que me roubaram, que me reciclaram perdão, e que aquelas cartas eram iguais às que te escrevia. tudo imaginado, tudo fora da realidade. nunca as leste, nunca nos cruzámos, nunca te chamei querida
hoje sobrevivemos virtualmente. somos figuras virtuais que se escondem atrás de uma identidade que, possivelmente, não é a nossa. não é a minha. não há pedaço do meu eu virtual que não te olhe nos olhos quando falas. não escrevemos mais que aquilo que não dizemos.
não quero uma cópia tua. não quero as palavras que já disse, ouvi e li. quero o original, quero voltar atrás, rasgar as cartas e escrever tudo de novo. escrever-te sem teres existido, querida C., mesmo que no fundo apenas estejas aqui.
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