quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

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incoerência na ponta dos dedos
ternura nas mãos embaladas pela memória
um órgão que não quer mais pulsar
carinho pelas veias


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

"deixei-te um dia num desalento"

da sociopatia diz o dicionário que é
Desequilíbrio patológico que se manifesta num comportamento anti-social e impulsivo ou agressivo

tu segues o messias do teu interior
a quem chamas sociopata
pedes uns segundos a sós
agarrada aos lençóis frios

tua

sociopatia
fobia
falsa telepatia
falsa sintonia
farsa doentia



"sociopatia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/sociopatia [consultado em 18-12-2017].

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous

querida C.,
estarias presente. não sei se fisicamente, não sei de que forma, mas lá estarias. 
hoje acordei e chorei. depois mordisquei uma maçã, demasiado doce para o meu palato. dei comida ao gato.
fui tratar do passe, tarefa que negligenciei durante algumas semanas... demasiadas semanas. tenho andado entre leituras e escrita, política e ensaios em segundo plano. 
foi o que foi. foi fácil cortar - hoje cortei o dedo -  mas é difícil esquecer - mesmo que tapemos a ferida. o tempo passa e parece que as memórias começam a vir à tona. não dá para afogar... não dá. eu tentei. 
tenho muito tempo para pensar. ainda mais para moer o passado recente, empoeirar o ar à minha volta. 
estou tão maldisposta C. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

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o som falhou, os dedos saltaram pelas teclas e ao braço faltou a força. o acorde fica por entender, não chega ao ouvido, não comunica ao cérebro.
ficámos parados na nossa própria dificuldade de compreensão e de comunicação. não conseguimos mudar os botões, pressionar os que se ausentaram. neste grande painel branco, só encontrámos acordes menores para nos sustentar.
assim é fácil fugir.


refugiei-me na ponte que te estendi para atravessares piano, piano.
soube depois que no teu mundo nada disto existe, e deixo-te rosas onde caíste em silêncio. hei-de sangrar as tuas palavras.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

...

raramente me lembro de ti.
estou a ouvir a análise futebolística de um jogo que não me diz nada, nem sei bem quem esteve contra quem.
eu não consigo olhar sequer para a caixa de comprimidos que tu sugeriste. ficou guardada, está no fundo da gaveta da mesa de cabeceira que está do meu lado.
nestes dias, involuntariamente, vêm-me à memória pequenos momentos, pequenas frases, detalhes do que ficou. olho para as fotografias que ainda não apaguei. fica para outro dia.
a distância temporal é curta mas sinto que tirámos aquela fotografia há décadas e desde então não mais nos vimos. esqueci-me tanto de ti.
um dia escreverei um poema no qual me lembre. um dia escreverei sobre esta sensação de felicidade conjugada com um vazio brutal, causada por não estares aqui.