quinta-feira, 28 de abril de 2016

malabarista

não consigo agarrar tudo à minha volta
os meus movimentos são precipitados,
tudo passa por entre estes dedos assustados
e quando tento parar fica a revolta.

há quem aguente a incerteza do futuro
brincando sempre junto ao muro
julgam conseguir avistar ao longe uma estrada
esticam todo o corpo, encostam-se ao cimento gelado
que importa se perdem uma ou outra vida,
quando já descobriram o fim desejado?

há quem domine o jogo de tal maneira
que sabe sempre onde cair,
sem interromper o barulho dos que assistem
sem deixar fugir a doçura nos olhos
com a segurança de quem já aprendeu que ninguém
(mesmo ninguém)
acerta à primeira.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

do 25 de abril

hoje sentiu-se nas ruas uma esperança renovada. olhares mais felizes e os passos mais alegres encheram toda a avenida.
se há cansaço gratificante é este. estar junto de quem realmente importa. rever amigos e camaradas que se juntam neste dia, independentemente da ideologia.

hoje cheguei feliz a casa. cansada, mas feliz. recarreguei as baterias, ganhei de novo o bom humor, apeteceu-me falar com toda a gente, inundar os outros de energia positiva.
diferente dos dias a que estou habituada.

mas... ainda continuo a ouvir as músicas que oiço todos os dias, ainda sinto as palavras como facas, ainda me magoo com pequeninas expressões que me transportam para quem eu era há dez anos. espero por dias melhores, e hoje foi o primeiro dia do resto da minha vida.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

das coisas que li hoje

não é comum rever-me nas palavras dos outros. é sempre tão difícil escrever o que sinto. eu não sou capaz, não espero que outros descrevam as minhas angústias.
há um certo encanto na diferença abismal que nos separa. há um certo encanto nas diferenças abismais que rompem com a monotonia dos dias.
mas repara, é tanto o que nos separa e, ainda assim, eu imaginei-me a escrever os teus textos. podia ser eu sentada a rabiscar o papel, podia ser eu a repetir essas palavras. pensei nelas tantas vezes, já as escrevi outras tantas.

eu também vou errando. perco-me.
as minhas feridas não sararam. se não tivesses aparecido, o que estaria eu a pensar agora? suponho que estaria a ser consumida pela saudade e pela mágoa. não é assim que tenho vivido?
não posso apoiar-me em ti.
eu já vivi isto, eu já vi esses olhos, já ouvi essas palavras, já escrevi sobre elas. eu sei como é que a história acaba e sei que o que faço é um erro.
desculpa.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

fevereiro, dois mil e quinze

Devias ir para casa descansar. É o que ela me diz, entre o sonho e a realidade, as palavras inventadas, memória construída de raiz, o som que ressoa nestas paredes imaginadas. É o que eu digo nas noites em branco passadas a escrever sobre ti, isto é, sobre a tua presença e a tua ausência, a tua omnipresença. É a tua recordação que volta, envolta em mágoa e eu não quero. Não te permito, não sei recusar-te, proíbo-te mas nunca fui de proibições, deixo o peito aberto.

Fecho-me. Falo comigo. Ralho comigo. Perco-me nas memórias, nunca vou voltar a ser assim, não há volta a dar, não consigo estabelecer um diálogo coerente. Tremo. Quando fico nervosa, tremo. Quando me vou abaixo, tremo. Faço caretas, mordo os lábios, entrelaço as mãos, tento estalar os dedos, brinco com as alianças, reviro os olhos, falo rápido ou fico em silêncio, ganhei vícios. Na minha ansiedade não há espaço para desejar a casa ou o descanso. Espero para desabafar, com alguém.

Dentro destas paredes imaginadas trocamos palavras duras, sentidas, emocionadas, depositando toda a mágoa e o carinho que ficou pelo caminho, que o azeite e a água podem conviver muito bem se quisermos. Os meus tiques abalaram, só um vício permanece mas até esse podemos partilhar. Lá fora a noite insinua-se, entra pela janela dentro e escurece a sala, eu sinto-me cercada por esta nuvem de frustração, olho para ti por entre o fumo e não me restam mais palavras. Esmago o meu último cigarro, desculpa, hoje ficamos por aqui. Tu insistes que hei-de chegar lá, o diálogo irá fluir, mas quando?

Enfio a cabeça entre as mãos e choro num ritmo descompassado, desalmadamente. São dores sem ferida, não me sei curar. Ainda que me acolhas, que me consoles, só consegues fazer isso neste local falso e eu só posso desabar à tua frente aqui. Outrora abraçavas-me, neste mesmo sítio, e eu julgava que isso curava as feridas. Hoje o teu olhar percorre o meu rosto e procura mais, mais do que eu consigo balbuciar e do que tu queres ouvir. Dizes-me que não pode ser, que a vida continua e que a noite é um engano, que nos deixa sem filtro, que tudo o que dissemos é um exagero, que fomos tropeçando nestas frases sem sentido porque já não temos nada a dizer. Eu respondo-te que só vim cá para dizer que me fazes falta, que não me interessa partilhar mais nada, que a escuridão e o Marlboro foram caprichos cinematográficos que podemos dispensar.


Quebro então as paredes que eu própria ergui. Não sabes que estive todo este tempo a contar-te tudo, que houve riso e choro, que remendei todos aqueles estragos só por te ver. Volto a quem me quer, aos cafés e aos jantares e às saídas, às aulas e à rotina cada vez mais cansativa, por não ter a força do mar. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

turmoil


dia de chuva
se existe protecção para a água, não inventaram ainda para a mágoa
e eu vou caindo nesta espiral
recordando todas as palavras, tudo o que foi especial
e sei que apareceste do nada, que nunca te esperei
que não és igual, que não substituis ninguém.
mas vê só, vais repetindo o que já ouvi
trilhando um caminho que já percorri
e se eu não quero voltar ao que já vivi
porque é que me deixo afectar tanto por ti?