quarta-feira, 26 de abril de 2017

saudades.

estou de férias. estou de férias até de mim. estou a aprender a não ter saudades. é bom que a vida aconteça e evolua, as pessoas entram e saem, as memórias vão-se fabricando, vão-se construindo, tu dás a tua parte e eu coloco o meu delírio de amor. 
dantes passava a manhã e eu já tinha saudades dos momentos que jamais se iriam repetir, das conversas, dos sorrisos. mais tarde, saudades das teclas que os meus dedos não iriam pisar outra vez, saudades dos teus dedos no teclado, das noites sem dormir para falarmos de tudo, saudades do msn, do facebook messenger, do whatsapp, do skype, do email, do sms, do telemóvel, do telefone, das cartas, do cara-a-cara, do olá-tudo-bem-sim-e-contigo. 
dantes entardecia e eu ia para a casa a pensar como me ias fazer falta. como já me custava ter acabado aquela conversa há cinco minutos atrás. como ia sentir falta dos nós na garganta, e do gaguejar e dos sorrisos e da maneira como dizias o meu nome. 
às vezes sorriem para mim e acrescentam -inha ao meu nome - no outro dia acrescentaram -ocas - e eu lembro-me como não gostavas de diminutivos, embora toda a gente gostasse do meu nome versão -inha. eu habituei-me. i've grown accustomed to her face
(eu sei, as saudades já desviaram este texto. já descarrilei.)
dantes, já doía não poder repetir a primeira vez que ouvi nunca disse isto a ninguém, mas gosto mesmo muito de ti  e não poder repetir a primeira vez que demos as mãos, que passeámos por Picoas, os primeiros beijos tímidos, a primeira carícia, as manhãs de trovoada e sexo... não vamos ter quinze nem dezasseis outra vez e a nossa vida agora é mais. partilhamos história(s) e saudade(s). receamos pelo futuro. queremos um gato. queremos mudar os móveis. queremos um bebé. queremos criar novas saudades. 
e quando a nossa prole tiver quinze ou dezasseis - estejamos juntos ou separados - iremos contar-lhes como nos conhecemos, quão bonita foi/tem sido a nossa história de amor, como somos uns doidos varridos, fomos apóstatas, alcoólatras, drogados, tatuados, progressistas e conservadores, e até isto já me faz falta.

e talvez por ter tantas saudades tenho sonhado todos os dias com toda a gente de toda a minha vida. o médico pergunta-me se são sonhos bons ou maus e eu respondo neutros. não sei mesmo. é mau sonhar com a mágoa, com o desentendimento, a apatia, o sono, a amizade, as lágrimas próprias da amizade, o dia-a-dia? é assim. o dia e a noite.


versos de adília lopes, pele 2017

Sem comentários: