a semana dos pesadelos.
sim, podia mesmo dar-lhe este título, a honra de ter sido a semana em que até a dormir consegui ser má. seres mau mesmo a dormir, lembra-me a rádio.
observo-te deliciada a escrever um texto, que me parece ser tão elaborado quanto as mentiras que escondes nessas palavras. demoras-te em longas pausas de reflexão, pousando a caneta ao lado do papel e mordendo os lábios com um sofrido receio de não encontrar os verbos e os adjectivos que mais se adequam à tua falsidade. finalmente suspiras e, por entre os ais teatrais, consigo entender o teu já acabei!, que acompanhas de um irritante acenar do papel rabiscado a caneta azul, saturado desta meia-hora de prosa abjecta.
peço-te então que leias, pedido que aceitas prontamente. aclaras a voz, como sempre, colocas o papel ao nível do teu olhar maquiavélico e vais declarando o amor que tens pelas pessoas que estão na tua vida. reparo que a tua respiração se descompassa ao entrares no parágrafo seguinte. eu sei quem é a próxima pessoa a ser atingida com o teu infindável amor. começas então a ler mais alto e a gesticular muito, isto é, queres que esteja atenta a este pedaço soberbo da tua escrita mas não consegues disfarçar esse esgar insuportável e a tentação de semicerrar os olhos a cada punhalada.
obrigada a quem eu conheci há tão pouco tempo, mas com quem gosto tanto de falar
os meus olhos mantém-se fixados no chão e temo levantar o rosto e revelar o desprezo e a confusão que essas palavras me provocam. tenho milhentas perguntas a fazer, e tu sabes perfeitamente que elas estão a navegar a um ritmo violento cá dentro.
pego nas minhas tralhas que enfiei descuidadamente atrás da poltrona onde estive até agora a ouvir-te e murmuro um até qualquer dia desonesto. não é verdade, não quero que um qualquer dia proporcione o nosso reencontro mas como responder a uma mentira senão com outra? no caminho para casa penso que se calhar tenho ciúmes, talvez me estejas a dizer a verdade. mas não é isso, pois não? a tua pessoa é muito mais atraente que a minha.
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