quinta-feira, 26 de julho de 2018

Rascunho


Nunca me esqueci do dia em que ela me disse que tinha sonhado comigo em cima de um palco, um mar de pessoas a ouvir-me cantar.
Durante muito tempo, sonhei acordada com essa visão, espantada com o que ela vira quando fechara os olhos. Nunca pisaria um palco, muito menos para que se ouvisse a minha voz, por vontade do meu peito, tambor fraco e cobarde.
Anos mais tarde, em cima do palco a cantar, perguntei-me se nessa névoa ela teria visto a emoção de receber aplausos, de olhar para rostos nunca vistos mas que contorcem a face como nós, são pequenas pessoas na escuridão a ouvir-me. A mim!
Ela já me tinha visto. Ela sabia do meu futuro.
Ontem, ela sonhou que o meu ventre carregava o futuro mais bonito que existe.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

2015

não demos por isso. já lá vão 3 anos. a única coisa que te posso dar é um lamento e os ombros encolhidos. não quiseste acreditar quando te disse que não valia nada. não valia a pena. quiseste insistir no erro, chapinhar no lamaçal dos meus erros.
desculpa e, olha, é assim mesmo. para a próxima ouve-me. eu conheço bem os cantos à casa.

terça-feira, 17 de julho de 2018

isto não é um raciocínio poético

o que é que eu faço acordada às 2 da manhã
com a angústia a percorrer o corpo
desde a clavícula até aos meus seios

o que é que eu faço com este aperto,
como é que eu posso adormecer nestes dias
onde é que eu vou buscar um nadinha de paz

vejo fotografias dos últimos 3 anos
e desejo que esse pedaço de vida não tenha existido
eu não consigo apagar o mal que ficou
eu não me perdoo por me ter consumido tanto
eu não quero viver mais um passado
eu tive a calma e a felicidade à minha frente e não me apercebi, só muito tarde me apercebi.

Georgy Gurianov (Russian, 1961–2013)
The Dive, 1995

sexta-feira, 13 de julho de 2018

"tudo o que ella dizia"

querida,
nem sabes, não imaginas, estás longe de entender a onda que criaste nestas águas paradas, cheias de espuma suja dos dias passados.
pergunto-me muitas vezes se os outros se lembram de mim, o que é que guardam? qual é a imagem que ficou do tempo que passámos juntos?
sacrificava parte de mim para te conhecer. sacrificava parte de mim para me consolares outra vez.

Almada Negreiros, Piquenique

sábado, 9 de junho de 2018

no comboio para a Covilhã é preciso esforçar os olhos para ver a paisagem lá fora, ao invés do nosso reflexo, e contudo desvia-se sempre o olhar para o nosso rosto. já nos perguntámos tudo, sobre os caminhos que temos escolhido, e nada nos surge senão uma cara cansada, a denunciar as noites mal dormidas.