sábado, 9 de junho de 2018

no comboio para a Covilhã é preciso esforçar os olhos para ver a paisagem lá fora, ao invés do nosso reflexo, e contudo desvia-se sempre o olhar para o nosso rosto. já nos perguntámos tudo, sobre os caminhos que temos escolhido, e nada nos surge senão uma cara cansada, a denunciar as noites mal dormidas.

sábado, 2 de junho de 2018

da necessidade de resguardo

"Quando desejamos moldar as coisas conforme a imaginação, vamos sempre de encontro a um muro e ficamos desiludidos, não com o outro, mas com as exigências que lhe fazemos. Isto é parvoíce e francamente muito antidemocrático, mas humano." Etty Hillesum

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Deo gratias

preciso expurgar os teus olhos
fixados no meu peito
queimar incensos,
deixar que qualquer anjo
siga o rasto desse fumo e,
ajoelhado  arrebatado
humildemente entregue as orações,
que os perfumes revelaram num fio acinzentado.





terça-feira, 29 de maio de 2018

29 de maio

o nó na garganta não desapareceu. tu nunca soubeste da minha inveja, como me magoava o teu à-vontade com os outros, a forma como ias beber café e assistir a peças, e falavas com as pessoas sem barreiras - pelo menos, sem as barreiras que me impuseste -, e eu ficava ciumenta e confusa com as tuas palavras. dizias que te querias proteger, mesmo antes de nos magoarmos. querias proteger-te de mim, porque rapidamente eliminavas a protecção com outros. deste ponto de partida, onde tu não te importavas assim tanto comigo - tu mesma apontaste que tinhas mais com quem te preocupar -, desmoronei-me. aos poucos fui castigando-me por confiar tanto em quem não conhecia, por gostar tanto de alguém que não conhecia, por não conseguir afastar-me de alguém que não conhecia. essencialmente repreendia-me por ter uma amizade através de um écrã. que tontice, pensava para mim. que falhanço só conseguir dizer o que anda práqui a corroer, escondida, sem expressão, a alguém que me vai respondendo, graças a todos os santinhos.

não vou negar que estes pensamentos - e a mágoa que me consumiu durante algum tempo - deambulam por aqui, por esta casa desorganizada. por vezes esbarro com estas coisas. tento não dedicar muito tempo a elas, por mais que me queira proteger. quero resguardar-me sim, mas não à custa de te transformar num monstro, numa construção mal enjeitada de mágoa e lágrimas que não sei se és. virtual ou físico, com mais ou menos expressão, resta-me a certeza que sempre tive: todas as tuas palavras me desequilibram, colocam-me à beira da mais insuportável e fiel ternura e, nalguns momentos breves, da mais profunda desilusão.
e é à beira da ternura, lendo os livros que me vais sugerindo, que escrevo estas palavras, na esperança de não deixar os meus defeitos envenenarem a tua imagem, e ficar grata pela amizade que dedicas, e de me lembrar, quando estiver da outra beira, que não sou senão uma formiga minúscula e insignificante na tua vida.


Etty Hillesum




domingo, 27 de maio de 2018

nem mais uma palavra

oferecer-te-ia tudo e mais do que pedisses
até as lágrimas justamente gastas
as palavras horrendas que te dediquei
o tempo desperdiçado a cravar os erros no peito
todos os poemas que escrevi e escreverei sobre ti
e todo o espanto que causas por não me poderes ser indiferente

Adília Lopes, Bandolim