o vazio não me deixava esquecer
que algures, num tempo não muito certo,
havia qualquer coisa, digna de um adjectivo bonito,
nas palavras. e na voz. e no embalo.
eu tenho que te agradecer pela interrupção do nada
não seria o embalo, um abalo? não seria a tua voz, um alerta? não seria aqui a paragem, o final de todos os adjectivos mais ou menos bonitos, mais ou menos tristes.
quando não falo, estou a evitar o confronto comigo
e inevitavelmente tropeço na normalidade das pessoas à minha volta.
"Aucun poème ne sera si grand, si noble, si véritablement digne du nom de poème, que celui qui aura été uniquement écrit pour le plaisir d’écrire un poème." Charles Baudelaire |||| "Há muitas marés que esperava por ti..." Romeu Correia
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
quinta-feira, 26 de julho de 2018
Rascunho
Nunca me esqueci do dia em que ela me disse que tinha sonhado comigo em cima de um palco, um mar de pessoas a ouvir-me cantar.
Durante muito tempo, sonhei acordada com essa visão, espantada com o que ela vira quando fechara os olhos. Nunca pisaria um palco, muito menos para que se ouvisse a minha voz, por vontade do meu peito, tambor fraco e cobarde.
Anos mais tarde, em cima do palco a cantar, perguntei-me se nessa névoa ela teria visto a emoção de receber aplausos, de olhar para rostos nunca vistos mas que contorcem a face como nós, são pequenas pessoas na escuridão a ouvir-me. A mim!
Ela já me tinha visto. Ela sabia do meu futuro.
Ontem, ela sonhou que o meu ventre carregava o futuro mais bonito que existe.
Durante muito tempo, sonhei acordada com essa visão, espantada com o que ela vira quando fechara os olhos. Nunca pisaria um palco, muito menos para que se ouvisse a minha voz, por vontade do meu peito, tambor fraco e cobarde.
Anos mais tarde, em cima do palco a cantar, perguntei-me se nessa névoa ela teria visto a emoção de receber aplausos, de olhar para rostos nunca vistos mas que contorcem a face como nós, são pequenas pessoas na escuridão a ouvir-me. A mim!
Ela já me tinha visto. Ela sabia do meu futuro.
Ontem, ela sonhou que o meu ventre carregava o futuro mais bonito que existe.
quarta-feira, 18 de julho de 2018
2015
não demos por isso. já lá vão 3 anos. a única coisa que te posso dar é um lamento e os ombros encolhidos. não quiseste acreditar quando te disse que não valia nada. não valia a pena. quiseste insistir no erro, chapinhar no lamaçal dos meus erros.
desculpa e, olha, é assim mesmo. para a próxima ouve-me. eu conheço bem os cantos à casa.
desculpa e, olha, é assim mesmo. para a próxima ouve-me. eu conheço bem os cantos à casa.
terça-feira, 17 de julho de 2018
isto não é um raciocínio poético
o que é que eu faço acordada às 2 da manhã
com a angústia a percorrer o corpo
desde a clavícula até aos meus seios
o que é que eu faço com este aperto,
como é que eu posso adormecer nestes dias
onde é que eu vou buscar um nadinha de paz
vejo fotografias dos últimos 3 anos
e desejo que esse pedaço de vida não tenha existido
eu não consigo apagar o mal que ficou
eu não me perdoo por me ter consumido tanto
eu não quero viver mais um passado
eu tive a calma e a felicidade à minha frente e não me apercebi, só muito tarde me apercebi.
com a angústia a percorrer o corpo
desde a clavícula até aos meus seios
o que é que eu faço com este aperto,
como é que eu posso adormecer nestes dias
onde é que eu vou buscar um nadinha de paz
vejo fotografias dos últimos 3 anos
e desejo que esse pedaço de vida não tenha existido
eu não consigo apagar o mal que ficou
eu não me perdoo por me ter consumido tanto
eu não quero viver mais um passado
eu tive a calma e a felicidade à minha frente e não me apercebi, só muito tarde me apercebi.
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Georgy Gurianov (Russian, 1961–2013)
The Dive, 1995
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sexta-feira, 13 de julho de 2018
"tudo o que ella dizia"
querida,
nem sabes, não imaginas, estás longe de entender a onda que criaste nestas águas paradas, cheias de espuma suja dos dias passados.
pergunto-me muitas vezes se os outros se lembram de mim, o que é que guardam? qual é a imagem que ficou do tempo que passámos juntos?
sacrificava parte de mim para te conhecer. sacrificava parte de mim para me consolares outra vez.
nem sabes, não imaginas, estás longe de entender a onda que criaste nestas águas paradas, cheias de espuma suja dos dias passados.
pergunto-me muitas vezes se os outros se lembram de mim, o que é que guardam? qual é a imagem que ficou do tempo que passámos juntos?
sacrificava parte de mim para te conhecer. sacrificava parte de mim para me consolares outra vez.
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| Almada Negreiros, Piquenique |
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