segunda-feira, 27 de novembro de 2017

...

raramente me lembro de ti.
estou a ouvir a análise futebolística de um jogo que não me diz nada, nem sei bem quem esteve contra quem.
eu não consigo olhar sequer para a caixa de comprimidos que tu sugeriste. ficou guardada, está no fundo da gaveta da mesa de cabeceira que está do meu lado.
nestes dias, involuntariamente, vêm-me à memória pequenos momentos, pequenas frases, detalhes do que ficou. olho para as fotografias que ainda não apaguei. fica para outro dia.
a distância temporal é curta mas sinto que tirámos aquela fotografia há décadas e desde então não mais nos vimos. esqueci-me tanto de ti.
um dia escreverei um poema no qual me lembre. um dia escreverei sobre esta sensação de felicidade conjugada com um vazio brutal, causada por não estares aqui.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

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c.,
é verdade. mesmo depois de tudo o que apaguei ainda tenho coisas tuas. às vezes oiço a tua voz, o que é estranho porque dantes nunca sabia bem como era. às vezes ainda te leio nas palavras que guardei. tínhamos laços. e eu gostava mesmo muito muito de ti.
agora tenho um bloco do principezinho para anotar as minhas coisas. deram-mo, sabes que detesto o principezinho.
é muito amargo anotar o que quer que seja num bloco assim. depois dos laços.


domingo, 22 de outubro de 2017

pity party

nem um sussurro que seja
qualquer ventania
qualquer janela
eu tapo os olhos com as mãos
tão frágeis
que te escreveram palavras
tão frágeis
que te revelaram um coração
tão frágil.

nem um verso solto por aí
num qualquer poema
em qualquer taberna
nem a tua cara num maço
que avise toda a gente
tu matas.


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

...

o autocarro em que eu estava colidiu com o da frente e as pessoas todas saíram.
não vale a pena esperar, agora ficamos aqui empatados
sinto que há aqui uma mensagem que eu não sei captar

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

do nada

escrevesse eu sobre a consistência da gelatina
e as camadas de fruta
e a cobertura de chantilly
sobre o preço a pagar por todas as camadas
mais ou menos coerentes
mais ou menos aceitáveis
destes dois anos.

escrevesse eu sobre o fiat
encostado à beira do jeremias
que, na melhor das hipóteses, conduziria
um carro frágil de esferovite às bolinhas.

se eu escrevesse com pés e cabeça
e, já agora, mãos e coração
poderia ter mais que um não
(até rimei).