quarta-feira, 22 de junho de 2016

avulso

não tenho inveja
garanto, forçando um sorriso convicto de quem já não tem nada a perder.
não mintas, sempre foste invejosa, sempre quiseste o que os outros têm. não aguentas ver a felicidade dos outros, precisas de aparecer e testar a aparente alegria das pessoas à tua volta.
nego. não apareci para ser inconveniente, não quis perturbar o vosso momento mas entendam aquilo que me está a acontecer. não tenho inveja, mas tenho uma tristeza enorme por não poder passar pelo mesmo que vocês, pelo menos para já.
há duas semanas que sonho com a mesma coisa. o meu corpo não tem ajudado. saberá ele do meu desejo? terei eu, inadvertidamente, provocado em mim os sintomas do sonho por realizar?
por isso se vos vejo assim e choro é apenas por isto, por querer. preciso de espaço para evoluir, para dar continuidade ao meu ser.
*
uma estranha praga assola os meus amigos.
a depressão.
já aguento isto há 18 anos, a conversa é sempre a mesma, já não aguento mais, para mim chega, retorque a jovem, visivelmente transtornada. o pensamento incauto é muito belo. não há nada como estar atenta à poesia que é criada inesperadamente, a cada segundo, pelos outros.
depois podemos continuar o dia a esmagar com as próprias mãos os sonhos, a alegria, a esperança que deveríamos carregar.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

home

tudo o que escrevo é literal
perdi o mistério, o ponto de interrogação que pairava
de cada vez que o teu nome fugia por entre as linhas
tudo tem sentido
quem sou eu para dar às palavras outra vida que não esta,
se na sua mutação perco tanto e deixo escapar o teu nome
tudo passa
e até poderemos escrever um dia sem figuras de estilo
como faço agora na esperança de agarrar o teu nome esquivo
para o devolver à casa.





sexta-feira, 10 de junho de 2016

dos dias

quando não sabia o que fazer com as palavras escrevia cartas
tu nunca as lias, mas era aí que largava o peso que trazia
o papel não nos tenta afastar, acolhe todas as letras apaticamente
e se nem me podia cruzar contigo, como é que haveria de contar-te a história dos dias?

tenho pensado muito na tua expressão decepcionada, porque tenho medo
há quem pareça transportar a tua essência, em quem vejo os teus olhos
carregados de amizade e de carinho e, mais tarde, de tristeza
nos teus dedos um cigarro, que já era apenas cinza, espera o fim

eu nunca percebi os teus olhos e as palavras que escondiam
nunca recebi as cartas que não escrevias.


sexta-feira, 3 de junho de 2016

junho

se me perguntarem o que se passa, eu direi nada
porque é isso que a minha voz me diz
nada, não és nada
e quando se é nada, não se pode querer existir
não se pode querer sentir


quarta-feira, 1 de junho de 2016