tive aulas numa sala com uma janela muito grande. ocupava toda a parede. passava as aulas de história a olhar para fora, a observar as pessoas e os carros e a inventar estórias. anos depois, nessa mesma sala, eu sentava-me em cima da mesa à frente do vidro e não falava. ficava a escutá-la e isso bastava. às vezes nenhuma de nós falava. ela dava-me tempo para o meu relógio parar.
ainda existem vozes assim, dessas que colocam um travão à velocidade a que vivemos. mas não basta.
eu dizia-lhe que nem tudo é maravilhoso, lamentava os enjoos e as tonturas, o sono e apatia (que, em boa verdade, deu um jeito dos diabos) e tudo o que ela sabia responder era que nunca se tinha sentido melhor, que sugeria a toda a gente (como se toda a gente seguisse um padrão).
a parte boa é que contornei a exaustão. sou capaz de pensar claramente. sou capaz de ler. sou capaz de falar e rir. sou capaz de limpar a casa, cozinhar, até já tenho umas plantaçõezinhas.
não o alcancei a passear (acredita, eu até tentei), nem a dar abracinhos e beijinhos a meio mundo (e não me falta quem os dê).
não há padrão, e quem nos quer enfiar padrões pela goela abaixo não merece a nossa atenção.
qualquer via é válida, não há menos dignidade em assumir fraquezas que têm de ser controladas.
quando eu não queria assumir as minhas fraquezas, ela dizia que há muito que acreditava que eu tinha preconceito. é verdade, o meu preconceito era acreditar que tudo ficaria melhor se passeasse, comesse muito sushi e namorasse muito. tem piada, não tem? crer que uma doença passa por nos distrairmos da vida. mas e quando te deitas? e quando ficas acocorada a chorar num canto? e quando choras esta vida e a outra no banho porque tudo te parece perdido?
eu aprendi muito nos últimos meses. obrigada.
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