quinta-feira, 10 de novembro de 2016

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tenho a mesma reacção contigo do que com... bem, digamos que levo as mãos à face de cada vez que tomo consciência. é tudo tão reconfortante em ti que eu julguei existir só bondade à minha volta. não é verdade, portanto arrefeço outra vez. 
passou uma semana.
a C. envelheceu muito apenas numa década.
vou-me lembrando de pequenos episódios felizes da minha infância. ir à pesca e a cana que depois me foi oferecida, correr com as ovelhas, dar bolotas aos porcos, arreliá-lo ao ponto de se rir e brincar que me ia dar com o chinelo... apesar da distância, se há memória (feliz), há dor. 
o padre pede para nos arrependermos dos nossos pecados. eu, que não acredito, penso nos meus erros, na inconsciência, nas armadilhas em que vou caindo embora devesse ser mais inteligente, depois dos golpes do passado. não sei se os outros pensam sequer. não se arrependem. 
a C. está atrás de mim. o cabelo dela está agora decorado com vários fios brancos que se perdem nos caracóis soltos. tem rugas. não se assemelha à imagem que eu preservei dela. 
e, no entanto, há um mês cruzei-me com a C. que não aparentava ser um segundo sequer mais velha. é estranho como a idade vinca-se no rosto de algumas pessoas, e deixa outras permanecerem como sempre foram. é estranho como a nossa memória vai envelhecendo algumas pessoas e deixa outras intactas. 
e no meio de tudo isto, ainda deixo cair a cabeça nas mãos e interrogo-me. pergunto-me se tenho confiado nas pessoas certas, se um dia não passarão de uma imagem guardada em mim que se vai desvanecendo. pergunto-me se envelhecerão, se se manterão assim como as vejo agora, e será que as memórias felizes darão lugar à dor? não, no meu estado frio e alheado as memórias não existem. tudo é apagado antes de doer. 

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