terça-feira, 17 de julho de 2018

isto não é um raciocínio poético

o que é que eu faço acordada às 2 da manhã
com a angústia a percorrer o corpo
desde a clavícula até aos meus seios

o que é que eu faço com este aperto,
como é que eu posso adormecer nestes dias
onde é que eu vou buscar um nadinha de paz

vejo fotografias dos últimos 3 anos
e desejo que esse pedaço de vida não tenha existido
eu não consigo apagar o mal que ficou
eu não me perdoo por me ter consumido tanto
eu não quero viver mais um passado
eu tive a calma e a felicidade à minha frente e não me apercebi, só muito tarde me apercebi.

Georgy Gurianov (Russian, 1961–2013)
The Dive, 1995

sexta-feira, 13 de julho de 2018

"tudo o que ella dizia"

querida,
nem sabes, não imaginas, estás longe de entender a onda que criaste nestas águas paradas, cheias de espuma suja dos dias passados.
pergunto-me muitas vezes se os outros se lembram de mim, o que é que guardam? qual é a imagem que ficou do tempo que passámos juntos?
sacrificava parte de mim para te conhecer. sacrificava parte de mim para me consolares outra vez.

Almada Negreiros, Piquenique

sábado, 9 de junho de 2018

no comboio para a Covilhã é preciso esforçar os olhos para ver a paisagem lá fora, ao invés do nosso reflexo, e contudo desvia-se sempre o olhar para o nosso rosto. já nos perguntámos tudo, sobre os caminhos que temos escolhido, e nada nos surge senão uma cara cansada, a denunciar as noites mal dormidas.

sábado, 2 de junho de 2018

da necessidade de resguardo

"Quando desejamos moldar as coisas conforme a imaginação, vamos sempre de encontro a um muro e ficamos desiludidos, não com o outro, mas com as exigências que lhe fazemos. Isto é parvoíce e francamente muito antidemocrático, mas humano." Etty Hillesum

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Deo gratias

preciso expurgar os teus olhos
fixados no meu peito
queimar incensos,
deixar que qualquer anjo
siga o rasto desse fumo e,
ajoelhado  arrebatado
humildemente entregue as orações,
que os perfumes revelaram num fio acinzentado.