quarta-feira, 11 de outubro de 2017

...

o autocarro em que eu estava colidiu com o da frente e as pessoas todas saíram.
não vale a pena esperar, agora ficamos aqui empatados
sinto que há aqui uma mensagem que eu não sei captar

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

do nada

escrevesse eu sobre a consistência da gelatina
e as camadas de fruta
e a cobertura de chantilly
sobre o preço a pagar por todas as camadas
mais ou menos coerentes
mais ou menos aceitáveis
destes dois anos.

escrevesse eu sobre o fiat
encostado à beira do jeremias
que, na melhor das hipóteses, conduziria
um carro frágil de esferovite às bolinhas.

se eu escrevesse com pés e cabeça
e, já agora, mãos e coração
poderia ter mais que um não
(até rimei).

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

...

quando trazes à memória
de repente é tudo nada
nada existe
nada foi dito
eu sonhei contigo
eu sonhei
eu

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

dias

corpo preso ao chão. eu vim a cantar para mim se eu quiser falar com deus. não consigo falar com deus e ele sabe melhor que ninguém que já tentei, vezes a fio. se lhe peço ajuda, envia-me sinais por descodificar, o teu nome em locais absurdos, és outros e és objectos. era fácil para ele moldar-te à forma do perdão, e no entanto as tuas ofensas orgulhosas continuam.
é difícil, é penoso conceder-te um acesso livre ao lado de cá. aos binóculos de deus somos criaturas ínfimas que se cruzam, colocadas no caminho uma da outra por razão nenhuma, ou por todas as razões possíveis?, e ele joga e baralha a seu bel prazer. há uma aleatoriedade e, ao mesmo tempo, uma intenção que ultrapassam o que conhecemos, como se deus rolasse os dados, para escolher um destino ao acaso, mas limitasse o número de pintas para que nos calhássemos sempre.
eu espero que ele decida perdoar-te, porque não sou eu. eu estou serenamente a aguardar instruções para te poder perdoar.

domingo, 6 de agosto de 2017

pois é, então.

é fácil abocaranhes-me e passeares pela vida, dentes serrados, parando para te olhares ao espelho, no espelho, nu...
é fácil esconderes-me atrás das portas, misturada com o pó, a sujidade que há no chão e em mim, e queres aspirar mas nada sai, deixa. deixa a sujidade para quem sabe conviver com ela.
mudamos de sítio e permanecemos, levamos tanto peso, sem necessidade. não tenho lugar para descarregar. não tenho, descanso, não tenho, descanso.