segunda-feira, 3 de abril de 2017

"quem te criou tão boa para o ruim e tão fatal para os meus versos duros?"

o som dos sinos. ensurdecedor por entre o sérgio
vou ao fundo do mar

repito a cada pancada
rogai por nós, pecadores
nós
que pecamos
que não nos sabemos esconder
estar quietos
nós
que queríamos a paz
e nos deixamos interromper
por sinos e orações
e igrejas onde a morte passa

bendito é o fruto do vosso ventre
que nos veio salvar 
e vos deixou a rogar por nós
pecadores
a arder de inveja e desejo
carpindo pelo caminho dos vulgares.

terça-feira, 28 de março de 2017

dies irae

recuamos e perdemos o que nos tornou humanos
as mãos, os dias, a luz
incendiavas o mundo à tua volta
todos os seres vivos, todos os objectos
o vizinho da frente, o santo no altar

queimas mais que a beata a tocar a pele

quarta-feira, 22 de março de 2017

madrugada

quando pousei a minha mão
juro que senti mexer
creio que vivia
apesar do sangue
tinha a certeza que existia.

por isso agarro a pele
arranho as pernas
à espera do futuro
e andas às voltas
dentro de mim.

terça-feira, 7 de março de 2017

dias solarengos

diziam que danificar e estragar não são sinónimos. não sabem o que são sinónimos.
diziam que não há intenção. não sabem o que é a intenção.
às vezes basta um toque, encostar sem querer, aproximar-se demais. chega para cobrir de nódoas negras. mesmo sem intenção.
vamos remendando, arranjando maneiras de disfarçar os danos enquanto não chega o dia de repará-los.
em processo de restauro, como os livros que se desfazem. cheia de nódoas negras, e algumas doem bastante, mas pronta para sarar. limpando o veneno que ficou, estabelecendo prioridades, focando no bom e esquecendo-me de vós (de ti?).

quarta-feira, 1 de março de 2017

não sei, março?

na madrugada surgiu um poema. rimava ti com esqueci - eu sei, cliché.
saí de casa. outro poema que ainda era sobre ti. já não sei quais as palavras ditas pela minha vozinha. perdi... perdi os poemas que te dediquei. esqueci-me deles entre os lençóis da cama e as paredes sujas de benfica. prometi-me que traria um caderninho na mala, para apontar estas ideias soltas mas os pássaros existem para voar e quando os aprisionamos perdem a alegria... deixam de cantar, acaba-se a liberdade e a espontaneidade, a loucura de andar à deriva sem ter de haver sentido. perder-se, perdermo-nos. não ter casa, não ter grades, não haver folhas. sair de um só jorro. ser vida a escorrer pelo corpo. é assim que importa escrever, cantar, amar (ou foder, em bom português)...  perdendo.