ler para não chorar
ou talvez deixar cair
as lágrimas. decoram as páginas
do Dostoiévski acabado de comprar
a cheirar a livro novo
maleável
como a amizade que se molda
aos novos costumes
que resiste às prioridades redefinidas
que não lamenta a touca que não nos toca.
"Aucun poème ne sera si grand, si noble, si véritablement digne du nom de poème, que celui qui aura été uniquement écrit pour le plaisir d’écrire un poème." Charles Baudelaire |||| "Há muitas marés que esperava por ti..." Romeu Correia
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
terça-feira, 17 de janeiro de 2017
quebrar
hoje sonhei que mudavas de foto de perfil no Facebook. estavas radiante e não há nada que me deixe mais feliz que ver-te assim.
não mintas. é para quebrar, eventualmente. vi uma criança puxar o galho de uma árvore, que corajosamente resistiu à força daqueles braços fracos mas entusiasmados. eu sou assim, fraca mas entusiasmada. ao contrário da criança eu vou partir o que sobrou. quando me chamarem à atenção e me quiserem puxar pela mão, salvar-me da miséria em que me afundei, já terei terminado a minha tarefa, olhos cegos com o peso das lágrimas e da inveja.
não mintas. é para quebrar, eventualmente. vi uma criança puxar o galho de uma árvore, que corajosamente resistiu à força daqueles braços fracos mas entusiasmados. eu sou assim, fraca mas entusiasmada. ao contrário da criança eu vou partir o que sobrou. quando me chamarem à atenção e me quiserem puxar pela mão, salvar-me da miséria em que me afundei, já terei terminado a minha tarefa, olhos cegos com o peso das lágrimas e da inveja.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
estômago
tu reciclas as palavras.
no fundo é o que todos fazemos, apanhamos expressões, citações e embrulhamos de novo para dar a outra pessoa.
não te posso dar nada do que pedes e quando tento escrever sai sempre mais feio do que gostaria. não há poesia a correr nas veias. portanto, não há nada aqui que te possa prender.
nem sabes como eu queria escrever de uma forma bonita, ter (ou ser) poesia, embelezar o que me dizes e o que já me disseram... em vez disso estou sentada a ver o fumo tomar forma, incapaz de escrever uma linha que seja sobre o inverno perfeito que me rodeou.
hoje li muitas cartas. será que também ficas a ver o fumo subir e rodopiar...? a amizade para ti é isto e para mim é um murro no estômago. senti que me roubaram, que me reciclaram perdão, e que aquelas cartas eram iguais às que te escrevia. tudo imaginado, tudo fora da realidade. nunca as leste, nunca nos cruzámos, nunca te chamei queridaC. um dia disseste-me que eu tinha jeito para isto, acreditaste na "poesia" porque nada era reutilizado. aquelas palavras eram originais, ditas pela primeira vez, sentidas genuinamente, e olha, eu não as posso dizer a mais ninguém. gastei-as contigo e ficou este abismo.
hoje sobrevivemos virtualmente. somos figuras virtuais que se escondem atrás de uma identidade que, possivelmente, não é a nossa. não é a minha. não há pedaço do meu eu virtual que não te olhe nos olhos quando falas. não escrevemos mais que aquilo que não dizemos.
não quero uma cópia tua. não quero as palavras que já disse, ouvi e li. quero o original, quero voltar atrás, rasgar as cartas e escrever tudo de novo. escrever-te sem teres existido, querida C., mesmo que no fundo apenas estejas aqui.
no fundo é o que todos fazemos, apanhamos expressões, citações e embrulhamos de novo para dar a outra pessoa.
não te posso dar nada do que pedes e quando tento escrever sai sempre mais feio do que gostaria. não há poesia a correr nas veias. portanto, não há nada aqui que te possa prender.
nem sabes como eu queria escrever de uma forma bonita, ter (ou ser) poesia, embelezar o que me dizes e o que já me disseram... em vez disso estou sentada a ver o fumo tomar forma, incapaz de escrever uma linha que seja sobre o inverno perfeito que me rodeou.
hoje li muitas cartas. será que também ficas a ver o fumo subir e rodopiar...? a amizade para ti é isto e para mim é um murro no estômago. senti que me roubaram, que me reciclaram perdão, e que aquelas cartas eram iguais às que te escrevia. tudo imaginado, tudo fora da realidade. nunca as leste, nunca nos cruzámos, nunca te chamei querida
hoje sobrevivemos virtualmente. somos figuras virtuais que se escondem atrás de uma identidade que, possivelmente, não é a nossa. não é a minha. não há pedaço do meu eu virtual que não te olhe nos olhos quando falas. não escrevemos mais que aquilo que não dizemos.
não quero uma cópia tua. não quero as palavras que já disse, ouvi e li. quero o original, quero voltar atrás, rasgar as cartas e escrever tudo de novo. escrever-te sem teres existido, querida C., mesmo que no fundo apenas estejas aqui.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
am i blue
talvez vos tenha amado como amo os dias frios em que me posso esconder, entre camadas de roupa e sono e preguiça. "há dias assim", diz ignorando com quem está a falar. a falta de comida, de sono, de conversa. passar o dia calada, com tanto por fazer e tão pouca vontade, e errar na pessoa em quem confiar.
as saudades são imensas. mas perdemo-nos.
as saudades são imensas. mas perdemo-nos.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
jan 2017
estás fora da minha janela
alguém te viu entre o fumo,
entre as garrafas vazias
e os pacotes que se acumulam
com a comida a apodrecer como
estas mãos que tentam escrever-te.
chamaram-te, abriram-te a porta,
enquanto eu dormia
enquanto sonhava com os teus passos
com a tua atenção.
não estive lá, não estou aqui
continuas no teu caminho,
não sou forte, não sou capaz
de gritar o teu nome.
alguém te viu entre o fumo,
entre as garrafas vazias
e os pacotes que se acumulam
com a comida a apodrecer como
estas mãos que tentam escrever-te.
chamaram-te, abriram-te a porta,
enquanto eu dormia
enquanto sonhava com os teus passos
com a tua atenção.
não estive lá, não estou aqui
continuas no teu caminho,
não sou forte, não sou capaz
de gritar o teu nome.
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