segunda-feira, 26 de setembro de 2016

healing II

começou assim, sem dizer nada, sem sorrir. sem olhar por medo. se chorasse, era demais, caía no ridículo. ninguém chora pelo engano, não se admite que numa amizade tal coisa exista. se realmente acontecesse ninguém se entregaria. no entanto, foi assim que soube que a reciprocidade é um mito, que as ilusões são efémeras, que o silêncio é propositado.
há silêncios usados como arma, sabias? ferem, afastam e, no pior dos casos, matam. por vezes, somos alvejados ciclicamente, e quando saramos as feridas e voltamos de lenço branco na mão, apelando à paz aparente em que vivíamos, somos recebidos de braços abertos com grandes festejos e discursos repletos de mentiras, nos quais acreditamos sempre. 
se porventura esquecemos o que já passámos, surge alguém que nos faz lembrar todas as promessas, todas as palavras indesejadas, que as repete. 
Repete aquela semana de silêncio. Renasce na primavera. 
ela agradece a lembrança de março. já não tento ser delicada. soa melhor quando entregamos este pedaço da memória a seco. no resto do ano, nada. começou pelo silêncio, depois veio o desprezo e, por fim, o vazio. 
não dói, não dói há muito. os dias são todos iguais, para nós. havemos de voltar aos dias em que não nos conhecíamos. havemos de apagar o que foi dito e o que foi escrito. ninguém se assemelhará a ti e, nesse momento, os silêncios terão justificação para além do teu veneno. para além do que me deixaste. a fé absoluta de que sou capaz de aborrecer o mais íntimo dos íntimos. 



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